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    segunda-feira, 3 de outubro de 2011

    João António F. Resende Alves




    Albergaria-a-Velha. 5 de Dezembro de 1952. Médio.
    Épocas no Benfica: 4 (78/79 e 80/83). Jogos: 141. Golos: 33. 

    Títulos: 2 (Campeonato Nacional), 2 (Taça de Portugal) e 1 (Supertaça).
    Outros clubes: Varzim, Montijo, Boavista, Salamanca e Paris Saint-Germain. Internacionalizações: 36.


    As luvas pretas eram a imagem de marca de João Alves. Por código genético, futebolista se fez. O avô, Carlos Alves, havia sido um dos melhores jogadores portugueses, depois da I Guerra Mundial, na defesa das cores do Carcavelinhos, após passagem também pelo FC Porto e pelo Académico da capital nortenha. Um dia, nas véspera de medir forças com o Benfica, os jogadores do Carcavelinhos decidiram concentrar-se, arcando as despesas, numa modesta pensão, de frequência no máximo pequeno-burguesa. Foi quando uma miúda, no atrevimento dos seus 12 anos, se abeirou de Carlos Alves e lhe pediu para, no dia seguinte, jogar com luvas, que amuleto seriam. Perante o insólito, o já reputado defesa disse-lhe que o jogo era a doer, não dava para calçar as luvas negras, mas sempre as levou consigo, de tão insistente a rapariga. Ao intervalo, o Benfica tinha já vantagem materializada. Na segunda parte, num alarde de superstição, enfiou as luvas e o Carcavelinhos… ganhou. Assim foi pela vida fora. Assim foi, também, o neto João. Sempre com luvas pretas.

    Na Sanjoanense, despontou. Cedo o FC Porto avançaria com a cantada. Só que o Benfica, já alertado, mandou avançar Fernando Cabrita para  São João da Madeira, com o fito de proceder à assinatura do contrato. Nada mais fácil. Benfiquista obstinado, João Alves feérico virou. Partiu com o avô para Lisboa, onde os pais já se encontravam.



    No escalão júnior, deu mostras de todo o seu repica-ponto. O jogo girava à sua volta. Pressentia, executava e até concluía. Era daqueles que acabavam de pensar quando os outros começavam a fazê-lo. Na passagem para sénior, João Alves foi cedido ao Varzim, tão gordo era o plantel da Luz. Na Póvoa, exibiu reportório. Jimmy Hagan integrou-o no elenco a abertura da temporada seguinte. Só que no preito a Santana, velha glória da saga europeia, em Freamunde, trica houve o prestigiado António Simões, deitando tudo a perder, ao que parece por causa das luvas pretas. Vingou a posição do Magriço e figura lídima da casa benfiquista. João Alves saiu para o Montijo, pela módica quantia de 600 contos, cifra que o Benfica tinha pago a fim de o jogador não ser mobilizado para a Guiné, ao serviço da Nação, como na altura mandavam dizer os cânones do regime.

    Um ano mais tarde, o Boavista abriu os cordões à bolsa e garantiu o concurso de João Alves, provavelmente o mais genial jogador que alguma vez de xadrez vestiu. No final de 75, em Alvalade, conquistava a Taça de Portugal, perante o Benfica (2-1), apontando o golo vitorioso. “Provei aos dirigentes que não me quiseram que, afinal, sabia jogar futebol”.

    Igual troféu ganharia no ano seguinte, qual papa-Taças, com Pedroto ao leme. O Salamanca, de Espanha, recepcionou-o. No país vizinho, foi mesmo considerado o melhor estrangeiro, batendo aos pontos jogadores da estirpe de Cruijff, Neeskens, Kempes, Ayala ou Luís Pereira. Regressou ao Benfica, passando a embolsar, dizia-se, o melhor ordenado de um jogador no futebol nacional. Perdeu o Campeonato por um ponto para o FC Porto, mas suscitou o interesse de vários clubes, acabando por ser transferido para o Paris Saint-Germain, no qual, pouco tempo antes, havia militado Humberto Coelho.

    Uma lesão complexa vitimou-lhe a época e retornou à Luz. Fez três anos de águia. Ganhou dois Campeonatos, duas Taças e uma Supertaça. Falhou, porém, a final da Taça UEFA, em 1983. “Só Eriksson poderia dizer porque não me pôs na equipa, depois de uma época inteira a jogar e a fazer grandes exibições. Mas se foi só por ter chegado atrasado a um treino, pareceu-me injusto de mais…”.

    Ferido no seu alicerce anímico, ao Boavista voltaria. No Bessa, substituiu Mário Wilson, inaugurando o ciclo de treinador. Já nessa condição, ao serviço do Estrela da Amadora, venceu a Taça de Portugal, a sua prova-fetiche.



    Pelo combinado luso, fez 36 jogos, metade dos quais na condição de jogador do Benfica. Despediu-se frente à União Soviética, em Moscovo, num impiedoso 5-0. E já não foi a tempo de ser convocado para o Euro 84.

    João Alves, com as suas luvas pretas, terá sido um dos mais sublimes futebolistas do Benfica. O que lhe sobrou em ambição faltou-lhe talvez no politicamente correcto. Quixotesco não foi. Só no campo. Palco das suas virtudes. Com alma e chama imensa.

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