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    terça-feira, 26 de julho de 2011

    Jaime da Silva Graça




    Setúbal. 10 de Janeiro de 1942. Médio.
    Épocas no Benfica: 9 (66/75). 

    Jogos: 229. Golos: 29. 
    Títulos: 7 (Campeonato Nacional) e 3 (Taça de Portugal).
    Outros clubes: Vitória de Setúbal. 

    Internacionalizações: 36.


    Ao mundo veio Jaime Graça, quando a humanidade assistia, com uma estranha sensação de impotência, à mais hedionda das guerras. Quinze dias depois, por feliz coincidência, a luz do dia haveria também de conhecer Eusébio, futuro companheiro de belas façanhas. Um e outro nasceriam no ano vermelho de 1942, já que o Benfica, de Martins, Albino, Gaspar, Valadas e Francisco Ferreira, baldas não deu nesse Campeonato. Órfão de pai, era palmo e meio ainda, a vocação para o mundo da bola cedo nele despontaria. Mais rapazola, participou em incontáveis torneios, representando colectividades populares da cidade de Setúbal, como o Estrela do Sado, o Independente, o Beira Mar e o Nacional. Nessa altura, projectava seguir as pisadas do irmão mais velho, Emídio Graça, que a internacional chegou e para Sevilha se transferiu, a troco de mil contos, no ano de 1958, quando Humberto Delgado fez tremer os alicerces do regime ditatorial.

    Convidado a ingressar no Vitória, era já o Catalunha, nas rodas de amigos, que nele viam uns tantos atavios, imitações muito próximas dos melhores nacos de bola produzidos pelos então jogadores do Barcelona. Agradou no primeiro treino que fez no Vitória de Setúbal, mas logo sentiu o ascendente do irmão Emídio, sabedor da poda. Porque não fazia sentido tão cedo ficar preso a um clube, Jaime Graça acabou por se fixar no Palmelense, de pronto vencendo o Distrital de juniores.

    De férias em Sevilha, encantou os espanhóis, mas de novo Emídio se impôs. Alguém teria de fazer companhia à mãe, modista era. Foi o que fez Jaime Graça, electricista de profissão, na Tropical. De emprego mudaria, porque o mestre não o dispensava mais cedo, a tempo de ir aos treinos. Foi para Junta Autónoma dos Portos de Setúbal, finalmente a troco de um contrato com o Vitória de Setúbal. Pelos sadinos, aos 20 anos, jogou a final da Taça, frente ao Benfica, com derrota por 3-0. Mas no ano mágico de 66, os mesmos contendores desforraram-se, desta feita com triunfo verde e branco, por 3-1, mais o golo de Jaime Graça.

    Convocado para os Magriços, em terras de Sua Majestade, a majestática noticia: era jogador do Benfica! Centrocampista com pés do mais fino quilate, tinha o dom de fazer gingar todo o colectivo. Ademais, excedia-se, dava constantes safanões ao jogo e, por contradição, naquele ar de quem parecia pedir desculpa por ter sido artista eleito para a mais apetecida arena.


    Três épocas, três títulos. Tudo parecia fácil na defesa da águia. Vingava o modelo do Inglaterra 66, de tão avermelhado do meio-campo para a frente. Com Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões, Jaime Graça terá composto o mais fecundo sexteto que a memória regista. Perdido o Nacional de 69/70 (era aquela maldição que atormentava o Benfica em ano de Mundial), nova série de três triunfos consecutivos. Outro ainda, em 74/75, para um total de sete em nove épocas apenas. Mais três Taças de Portugal e 24 internacionalizações, enquanto nos quadros da Luz.

    Sobrou-lhe sempre o desgosto de não ter sido campeão da Europa. Esteve perto. Quase acreditou na maldição de Guttmann, segundo a qual, depois de 61/62, “nem nos próximos cem anos, o Benfica conquista o titulo europeu”. Ou na outra maldição, a do sempre inóspito Wembley, onde o clube sucumbiu na final frente ao Manchester United e a Selecção com a congénere inglesa. Naquele jogo, já na segunda parte, Jaime Graça apontou o golo probatório do inconformismo benfiquista. Mas no prolongamento, deu-se a derrocada. Ganhou o Manchester United, por 4-1. Sonho findo.

    Sete vidas tem o gato, diz-se. Jaime Graça, pelo menos três. Ele que se vangloriava, já lá vão 30 anos, de apenas 20 minutos gastar, da casa de Setúbal à Luz. No inicio do ano de 72, ao volante de BMW, acidente grave sofreu, a 170 km/h acelerava, nas vésperas de um Benfica-Sporting. Também a morte conseguiu driblar, fez uma operação plástica, um mês depois voltaria à competição.

    Muito mais trágico ainda, o episódio da morte de Luciano. Foi quando se deu, em 66, um curto-circuito, numa segunda-feira, dia de recuperação, com banhos e massagens, regressava a equipa de São João da Madeira. Não foi a tempo de salvar Luciano, mas utilizando os seus conhecimentos de electricidade, conseguiu forças para saltar da piscina, onde estavam Eusébio e Malta da Silva, para, no momento certo, desligar o quadro eléctrico. Também por isso, o Benfica continuou a exibir, sedutoramente, Eusébio ao Mundo.

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